O Segredo da Amoreira (trecho)

Deixar Ricardo? De jeito nenhum. Isso não estava nos planos de Isabel. Não tinha coragem. Ele dependia muito dela, e nunca iria se recuperar. Seria capaz de fazer uma loucura… Agora sabia: não poderia dizer que o amava como homem. Ele era um irmão, um filho. Mas ele a amara a vida inteira, desde criança. Nunca tivera outra mulher. Por isso, se casara com ele. Porque ele a amava, e não iria fazê-la sofrer. Não adiantava se perguntar agora se isso era motivo para casar. Era tarde.

O que sentia por ele, afinal? E por Lucas? Dependia de seu estado de espírito. Pensava em Ricardo e sentia paz, porque tinha seu carinho e apoio. Pensava em Lucas e sentia desespero, porque o desejava e ele estava longe. Sabia que era loucura, mas se pudesse tê-lo mais uma vez! Mesmo que nunca mais o visse, teria algo em que pensar para sempre.

Enganava-se ao acreditar que se tornara insensível. Sua frieza de sempre era uma máscara para guardá-la do sofrimento. Ocupava a mente e o coração com o trabalho doméstico e a lembrança dos filhos, para não sentir a solidão que a rodeava. Vinte e quatro horas por dia acreditava ser uma pessoa feliz; um só minuto vazio a fazia pensar em Lucas.

 

***

 

Ricardo apagou a luz e sentou-se na cama.

– O que você acha de irmos almoçar na casa de minha mãe amanhã?

Ela riu sem vontade.

– Ah, é verdade! Amanhã é domingo outra vez. Onde estou com a cabeça? Por mim, ainda era sexta-feira.

– Você não disse o que acha.

– Vamos, então. Pelo menos não vou ter que fazer almoço.

Ele se espreguiçou e puxou o cobertor sobre os joelhos.

– Nossa! Como trabalhei hoje! O pior é que o Manuel nunca está contente com nada. Quanto mais a gente trabalha, mais ele exige. Depois tem aquele pessoal novo, é uma falta de vontade que só vendo! E a responsabilidade toda cai em cima de mim…

Isabel sentiu um forte carinho pelo marido. Ele costumava desabafar com ela seus problemas de trabalho, e dependia de seus conselhos para se acalmar.

– Paciência, Ricardo. A gente depende do trabalho e não pode fazer nada. Se você for discutir, acabam te mandando embora, e aí eu quero ver.

– Eu sei. Mas dá vontade de largar tudo, isso dá.

Foi só depois de alguns segundos que Isabel murmurou:

– Não ligue para isso. Você vai se aposentar no ano que vem mesmo… pra que ficar criando caso?

Ricardo se aproximou dela em silêncio. Abraçou-a com força. Ela apoiou a cabeça nos braços do marido.

– Hoje não, Ricardo. Estou cansada.

Ele afrouxou o abraço.

– Que pena. Logo hoje que estou com tanta vontade de ficar com você.

Isabel suspirou. A pouca luz que entrava pela janela emprestava um ar de fragilidade a seu rosto.

– É que trabalhei o dia todo.

– Eu também. E fiquei pensando em você o dia todo.

A escuridão disfarçou as lágrimas de Isabel. Se fizesse um esforço! Mas sabia que não era capaz de suportar. Quando andava pensando em Lucas, era assim.

– Me desculpe. Outro dia, ou outra hora… está bem?

– Posso ao menos te dar um beijo?

Ela não respondeu.

Ricardo a beijou carinhosamente e aproximou o travesseiro do seu.

– Eu ainda te amo, Isabel.

– Eu sei… eu também te amo…

Apesar do esforço para falar, naquele momento Isabel teve a impressão de estar dizendo a verdade.

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