Crônica – A idade do exagero

– Eu a-pos-to que você era fã do Menudo! – disse meu amigo, me olhando do outro lado da mesa do restaurante lotado. E todos os olhares do grupo se voltaram para mim. Tive que explicar que não, eu nem dava bola para os garotos de Porto Rico, e não era por vergonha de admitir. Afinal no começo da adolescência eu era completamente “nerd”, apesar de esse termo nem existir naquela época. Enquanto as minhas amigas colecionavam figurinhas da Turma do Moranguinho, eu pesquisava mitologia grega nas enciclopédias de meu pai.

Pouco depois veio o RPM, e – agora sim, confesso – eu era louca pelo Paulo Ricardo. A porta do meu guarda-roupa era cheia de posters, fotos e reportagens sobre ele, que eu exibia com orgulho. Cantava todas as músicas do grupo, mesmo sem compreendê-las. Essa época coincidiu com a minha primeira sandália de salto alto, que me rendeu vários tombos e gozações dos meninos. Sem contar a cicatriz no tornozelo causada pela primeira vez que passei a gilete na perna. Fiquei impressionada com a quantidade de sangue que saiu de um corte tão pequeno. E deixei os pêlos crescerem por um bom tempo antes de me arriscar novamente.

Os bailinhos de sábado à noite eram sempre na casa de alguém da turma. Fazíamos vaquinha para alugar a iluminação, que um dos meninos mais fuçados controlava enquanto dançávamos. O som vinha do 3 em 1 dos donos da casa ligado no último volume. As mães ficavam conversando na cozinha, e a cada cinco minutos uma delas vinha conferir se estava tudo bem com a garotada.

– Acende a luz aí! E nada de dançar muito agarrado!

Apesar da vigilância, de vez em quando rolava algum beijo no canto da sala ou embaixo da árvore da calçada. Aí ficava sendo o assunto da semana, sussurrado nos bancos do pátio da escola.

– Gente, o Cláudio beijou a Cris!

– Até que enfim ela conseguiu!

Ouvíamos Legião Urbana e meu pai ficava horrorizado com as letras das músicas, além de achar que Lobão e Cazuza eram a mesma pessoa.

– Hoje em dia não existe mais música, só barulho!

E as roupas? Lembro-me de que naquela época (mais ou menos em 1986) eu tinha um camisão cor de laranja com estampas de super-heróis que fazia o maior sucesso entre as meninas. Costumava usá-lo com um legging amarelo de lycra e um par dos famosos tênis All-Star num tom verde vivo. Ou combinava um par de botas brancas com presilhas rosa e lilás nos cabelos. Cortávamos as mangas das camisetas em tiras e passávamos sombra azul nos lábios para ficarmos iguais à Cindi Lauper na capa do disco.

Mais para o final da década as coisas pioraram. Recentemente eu fiquei chocada ao assistir o vídeo de uma festa em que aparecia dançando lambada com o cabelo cortado no estilo “Chitãozinho e Xororó”, de camiseta azul por dentro da calça de cós alto. O pior é que naquele tempo eu achava lindo… De repente, o chique era música sertaneja. Os rapazes estacionavam os carros (emprestados dos pais) na rua e ouviam as músicas do Leandro e Leonardo no volume máximo. Em fitas cassete, claro, porque naquele tempo não existia o CD.

A moda acompanhava as novelas. Durante algum tempo todo o mundo imitava o sotaque nordestino dos personagens de “Tieta do Agreste”. Depois veio o “Pantanal” e passou a ser ofensivo um rapaz convidar uma garota para nadar na cachoeira. A gente virava onça.

Por volta de 1990 começou a fase de só vestir preto. Minissaia com blusa de alcinha, jaqueta cheia de detalhes e meia arrastão. As unhas muito compridas, com esmalte em cores berrantes, formavam um contraste com as roupas. Colares, pulseiras e brincos enormes, maquiagem chamativa, justo eu que hoje em dia mal passo um batom cor de rosa. Naquele tempo eu queria ser a Madonna. Mas descobri que não tinha vocação – a rebeldia estava só na superfície – e me casei pouco depois. Doei as roupas pretas, não ficava bem uma mãe usar vestido curtíssimo.

Hoje meu filho canta umas músicas debaixo do chuveiro que dá medo dos vizinhos escutarem. Fica meia hora na frente do espelho fazendo caretas. Sai do quarto com boné cheio de argolas, camiseta vermelha justa com estampa de dragão, jaqueta militar e calça jeans preta cheia de bolsos, com um perfume que dá para sentir a um quarteirão. Entucha o cabelo de gel, faz uns penteados malucos imitando o estilo do Alemão do penúltimo Big Brother.

– E aí coroa, me ajeita dez reais para eu ir ao cinema? O Rafael vai passar daqui a pouco.

Dá vontade de mandá-lo trabalhar. Coroa! Que horror, onde já se viu?

– Cadê o respeito?

– É um jeito carinhoso de falar, entende? – Me dá um beijo no rosto e sai correndo. O amigo já está chamando no portão.

A gente demora um tempo para se acostumar com o visual. Pior ainda são os diálogos recheados de termos de informática: orkut, msn, bytes e megabytes. De vez em quando ele fica megafeliz. Parece que falam outra língua. Mas me chamar de coroa?

Engana-se quem acredita que o pai daria um jeito. Quando o dito-cujo aparece aos domingos para passear com o filho, este enfia o celular no bolso da jaqueta, sobe na garupa da moto e diz:

– Beleza, véééio!

Adolescente é tudo igual. Ainda bem que passa depressa…

 

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