Conto – Um passo no escuro

Passava um pouco das onze horas quando ela atendeu a porta. Tinha certeza de que ele viria; estava esperando, apesar de não terem nada combinado. Como poderiam confessar um para o outro aquilo que os olhares diziam, aquilo que seus corpos sentiam? E no entanto, mesmo sem palavras, não havia a menor dúvida. Meia hora antes, na chácara de Antônio Mineiro, ele não estivera olhando para ela? Na noite fria de julho, ela estremecia; seria por causa da lua cheia que surgia imensa atrás das árvores? O grupo reunido em volta da fogueira contava histórias de assombrações e lobisomens, Teodoro brincava com a viola para animar o povo. Em meio aos comentários e à música, sentado bem do lado oposto de onde ela estava, meio escondido na sombra, ele observava cada um de seus movimentos, os olhos negros febris de desejo.

Naquela mesma noite Antônio havia contado uma história a respeito de um amigo que se envolvera com uma mulher casada. Não se lembrava dos detalhes, mas tivera um final trágico, “vocês concordam comigo que adultério é pecado?” Não respondeu à pergunta de Antônio, apenas abaixou a cabeça, sentindo-se corar. Por que tocavam nesse assunto? Olhou para Luiza com o bebê adormecido nos braços, envolto numa manta. Sentiu um desejo de ser simples e boa como aquela gente, apenas atravessar a existência sem grandes ambições nem grandes remorsos. Mas a chama da fogueira crescia dentro dela e nos olhos negros de seu amigo. Havia outros que a olhavam, Teodoro lhe fazia gracejos, Maurício ficava vermelho e gaguejava quando falava com ela. Talvez fossem fáceis demais para uma mulher que amava desafios. Esfregou as mãos, tentando aquecê-las, mas não era o frio que a incomodava. O mundo ao redor de repente pareceu-lhe irreal. Tudo que havia era aquele homem que ela conhecia tão bem, e que ao mesmo tempo guardava tantos mistérios. Ele estava quieto, mal dissera uma palavra desde que chegara, e em nenhum momento se dirigira a ela. Apenas sentia seu corpo com os olhos. Em pensamento percorreu os cinco metros que a separavam daquele olhar, imaginou o que aconteceria se alguém dali descobrisse, de novo estremeceu. Mesmo assim, quando se despediu de todos e voltou para casa, sabia que ele não demoraria mais do que quinze minutos. A lua agora estava bem alta no céu. Não podia mais fugir porque era chegado o momento, morreria de desespero se ele não viesse.

Ela era o escândalo do quarteirão. Jovem de mente aberta, despertava a curiosidade de todos com suas opiniões extremamente sinceras sobre assuntos polêmicos. Morava sozinha, o que por si só era motivo de comentários. Cantava, dançava, ria com os amigos, seus relacionamentos amorosos não eram sérios, nenhum homem jamais poderia ser seu dono. Nas esquinas do bairro todo o mundo sabia da vida de todo o mundo, mas dela ninguém sabia – apenas desconfiavam. Comentavam-se histórias das mais absurdas a seu respeito. Ela se divertia com isso, atiçava ainda mais a imaginação do povo. Não tinha medo de correr riscos. Mas com homem casado nunca se envolvera, pelo menos não que soubesse.

Sobrinho e afilhado de Antônio, ele nascera na vila mas estudara fora. Conhecia outros lugares e outras formas de pensar. Uma manhã de sol no final do inverno, noite estrelada, assim era a presença dele em sua vida. A afinidade que surgira entre eles fora imediata; apenas duas frases trocadas e já haviam se tornado amigos.

Nunca tinha olhado para ele como homem antes, só agora percebia que ele tinha uma boca carnuda, bem sensual, e aqueles olhos escuros misteriosos. Só agora, depois de ter ouvido dele na semana anterior que sentia-se muito atraído por ela, “o perfume que você usa me deixa louco, não tenho mais paz, queria descobrir o que você tem que me faz sentir assim”. Na ocasião dissera a ele que algumas fantasias devem ficar apenas na imaginação, do contrário podem machucar. Achava muito agradável conversar com ele; nem sempre podia encontrar uma cabeça pensante entre o povo supersticioso e cheio de preconceitos do bairro. E era só isso. Jamais dera motivo, não havia nada que justificasse aquele interesse.

Mas ele sabia, ele conhecia os segredos de sua alma. Sabia que ela estava perdendo o sono, que pensava nele nas horas desiguais de suas madrugadas, com uma paixão ardente, absoluta.

Estava esperando por ele, vestira uma lingerie sensual mas sem exagero, blusa preta e calça jeans por cima, como admitir que também o queria? Era dar um passo no escuro, não sabia onde ia chegar. Pensara nele a semana inteira e agora ele estava ali, na porta de sua casa, a noite gelada a envolvê-los.

– Não vai me convidar para entrar?

Nas palavras casuais transparecia a sensualidade da voz rouca. Tensa, sem saber o que fazer, convidou-o para entrar e sentou-se no sofá ao lado dele, as mãos tremendo.

– Por que você sempre fica tão ansiosa quando eu venho aqui?

Por quê? Por quê? Bem que gostaria de compreender. Percebeu o quanto ele ficava à vontade naquele ambiente, o rosto iluminado apenas pela luz alaranjada do abajur. Que sensação estranha era aquela, vontade de mergulhar os lábios nos dele, perder-se?

– Você dormiu bem à noite de sexta para sábado?

– Acho que sim, não me lembro – respondeu ela, fingindo calma. – E você, dormiu bem?

– Como uma criança.

– Você não ficou com remorso, nada?

– Não quero pensar nisso. Você se preocupa demais, às vezes é melhor apenas viver o momento.

Nunca tinha olhado para ele como homem antes. Quantas vezes ele lhe dissera essa mesma frase, em outras circunstâncias? Agora parecia estar fora de lugar, não se encaixava na situação.

Que sensação estranha era aquela, que brotava das profundezas de seu ser e crescia de intensidade como uma onda se desmanchando na areia? Era a mesma força que fazia o mundo caminhar, geração após geração, e tornava possível o que parecia absurdo. Era maravilhoso e assustador, o olhar dele mergulhado no seu, contemplação e silêncio. Tantas coisas para dizer e não encontrava palavras, era toda emoção e desejo.

Naquela noite estava decidida a se libertar do medo. Finalmente se entregaria a ele, conheceria os mistérios de seu corpo. Depois, quem sabe? Sairia da vida dele, se afastaria, nem ao menos alimentaria aquela amizade que os unia há tempos. Mesmo que fosse se arrepender pelo resto da vida.

Como pensar em arrependimento? De qualquer maneira estava perdida, não falavam dela nas esquinas? Que falassem com razão, então… O fogo do inferno não podia ser mais torturante do que o desejo insuportável que sentia.

Ele a deitou no sofá, podia sentir seu cheiro, as mãos dele percorrendo seu corpo, desesperadamente, “queria descobrir o que você tem que me faz sentir assim”… Ele tinha um casamento feliz pelo que ela sabia. Nunca imaginara que o teria como homem, parecia uma eternidade que estava ali, com os dedos entre os cabelos dele, numa luta sem palavras que não tinha a menor chance de vencer. Agora as mãos dele estavam abrindo sua blusa. Por que você faz isso comigo? gemeu. A voz dele era um murmúrio. Porque você me deixa louco…

Fechou os olhos para sentir o beijo, tantas vezes imaginado e esperado. Mas apenas sentiu os lábios dele tocando de leve sua face. No instante seguinte ele estava em pé ao lado dela.

– Preciso ir agora. Já é tarde para estar na rua.

Ela tentou dizer qualquer coisa, não vá embora ainda, eu te quero tanto. As palavras não vinham, uma barreira tinha se levantado entre eles.

– Sou um pai de família, lembra-se?

Estava flutuando em outro mundo, fora de si em algum lugar. Ele tentou dar-lhe a mão, pedir desculpas, de que adiantava? Sentiu-se humilhada, ele a usava como se fosse um objeto qualquer. Agora não havia mais desejo nos olhos negros. Pareciam até mesmo odiá-la. Não teve forças para acompanhá-lo até a porta, deixou-se afundar no sofá. Tão simples assim, a transição entre o céu e o inferno era apenas um passo. A lua ainda brilhava na noite gelada, mas estava bem menor agora, vista através do vidro da janela.

Ouviu quando ele fechou o portão. Ficou ali, imaginando que ele voltaria. O perfume dele em suas mãos, as palavras dele no pensamento, “não vai me convidar para entrar?”, a voz macia, quase um sussurro. Impossível que não sentisse nada. Qual o motivo daquele comportamento estranho? Ela nunca o procurara, por que então despertar-lhe toda aquela paixão? O que fazer com as horas daquela noite sem ele, seus vinte e cinco anos e o resto da vida pela frente? Pela primeira vez pensou na esposa dele, meiga e inocente, tão diferente dela que era uma mulher vivida e conhecia a maldade dos homens. Imaginou a família desfeita, os filhos sem o pai. Agora sentia gosto de lágrimas, junto com a paixão vinha o sentimento de culpa.

Sem saber por quê, veio-lhe à mente a lembrança de uma conversa tida há alguns meses com Antônio, que a queria bem como se fosse uma filha. Diante de sua rebeldia com os homens, ele dissera que ninguém manda no coração e que não podemos escolher a pessoa por quem vamos nos apaixonar. E ela respondera que tudo bem, podia não mandar no próprio coração, mas nem por isso precisava ser escrava dele.

Pensou ser melhor assim. Que ele ficasse com suas fantasias, e ela com a sensação amarga do desejo insatisfeito. Sua dignidade, apenas arranhada, ainda tinha conserto. Melhor assim, aquele homem não podia lhe dar o que ela queria, no fundo a maluquinha do quarteirão era apenas uma criança sonhando com um príncipe encantado. Por Deus, como ardia seu coração, a dor de perdê-lo. Mas era como a lua, morria e renascia sempre diferente.

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