Conto – Identidade

O hall de entrada do apartamento cheirava a madeira e a algum produto de limpeza que ela não conhecia. Sentiu um arrepio ao lembrar que era o mesmo cheiro de dezoito anos antes. Como se o tempo não tivesse passado. Os meninos, empolgados, comentavam tudo com curiosidade. Temeu pelo estrago que o espírito de liberdade deles pudesse causar à decoração impecável. Com cinco e sete anos respectivamente, estavam na fase em que o mundo se configura num grande laboratório de testes.

No passado o apartamento parecia assustadoramente maior. Algumas recordações eram bem nítidas. A janela da cozinha, de onde se via uma praça ensolarada com um gramado bem cuidado e imensos arbustos de folhas vermelhas. A avó ralhando com ela porque comera a maçã pela metade, dizendo que precisava aprender a não desperdiçar as coisas. O colorido das casas e dos apartamentos. Fachadas em tons de vermelho, laranja e verde-piscina. Lembrava-se também de que mesmo na ponta dos pés não conseguia olhar pela janelinha de vidro do elevador, e que sempre disputava com sua irmã quem iria apertar o botão para subir e descer.

A viagem fora longa e cansativa, mas ela se sentia desperta. Durante os preparativos ficara com a boca cheia de feridas por causa da tensão. Os filhos deram trabalho no aeroporto. Para que não se perdessem em meio a tantas lojas, colocou-os no carrinho, sentados sobre as malas, e passeou com eles até as pernas não agüentarem mais. No avião, já cansados, os meninos distraíram-se com a televisão até dormir. Ela ficou olhando para o Oceano Atlântico pela janela enquanto o sol nascia. Com medo, não sabia do quê. Às oito e meia, a visão da costa norueguesa fez seu coração bater depressa. O medo intensificou-se e só desapareceu quando viu a família esperando por ela no desembarque. Todos sorrindo.

No café da manhã, com o rosto banhado de lágrimas, a avó lhe dissera que era muito parecida com a mãe. Passou a mão em seu rosto, parecia não acreditar. Tantos anos sem ter notícias, a mãe falecera quando elas ainda eram crianças, como era confortador saber que elas trabalhavam, viviam com dignidade, que não lhes faltava nada.

Parecida com a mãe? No Brasil consideravam sua aparência exótica. Na escola fora sempre uma das mais altas da turma. De acordo com a tabela do pediatra, chegaria facilmente a um metro e oitenta e dois de altura. Aos treze anos decidiu parar de crescer – como iria arrumar namorado desse jeito? – e ficou com um metro e setenta. A irmã a ultrapassou. Chamava-a de tampinha, ela respondia que se tamanho fosse documento o elefante seria dono do circo. Comia de tudo e não conseguia passar de quarenta e sete quilos. Diziam que podia ser modelo. Ela se sentia a menina mais feia e desajeitada do mundo. Os garotos tinham medo de se aproximar. As colegas achavam graça em seu modo de falar, imitavam seu sotaque. Desde então desenvolveu uma dificuldade enorme para se expressar, a voz mal saía, tinha trauma de atender telefone. Falava, sim – às vezes pelos cotovelos – mas coisas sem sentido, coisas que não pensava, e tinha sempre a impressão de não ter usado as palavras certas.

A professora mandou-a para uma psicóloga. Depois de meses, o diagnóstico foi de insegurança. O pai, muito rigoroso, não acreditava na psicologia moderna. Por que a filha haveria de estar insegura? Ele se casara de novo e a madrasta achava que aquela menina nunca ia ser gente. Como era difícil lidar com aquela criatura esquisita! Se ao menos se interessasse pelas mesmas coisas que as garotas normais… Quando não estava trancada no quarto com os livros, saía para caminhar pela cidade e demorava horas para voltar, deixando todos preocupados.

Mais tarde na adolescência, descobriu as vantagens de ser diferente. Fazia tudo que lhe dava na cabeça e as pessoas achavam que eram manias de estrangeira excêntrica. Quando não tinha dinheiro para comprar roupas, inventava maneiras de se vestir e dizia que era moda na Europa. Todo o mundo acreditava. Havia até quem imitasse seu estilo. A cabeleireira duvidava que suas madeixas douradas fossem mesmo daquela cor. De onde vinham suas idéias, liberais demais para o ambiente onde crescera? Bisbilhotando as cartas que a mãe escrevia, descobriu que nos anos setenta ela escandalizava a sociedade dizendo que as mulheres também sentem desejo sexual e que o casamento não era absolutamente necessário para a felicidade. Do pai, herdara o sangue latino e a rebeldia. Fugiu de casa com quinze anos para morar com um rapaz que também era diferente, e logo descobriu que as esquisitices de ambos não se encaixavam. Alugou uma casa para morar com as crianças. Gostava do sol, de música alta e de festa. Mas gostava ainda mais de livros, de museus, de longas caminhadas em contato com a natureza. Tinha apenas contatos superficiais com pessoas de sua idade. Não conseguia se adaptar a nenhum grupo, sentia-se alguém de outro planeta.

Tinha havido, sim, um tempo em que era uma só. Talvez um tempo em que não tivesse consciência de que era diferente. E a estranheza que causava aos outros era-lhe familiar como o cheiro de madeira encerada. Agora, onde quer que estivesse, alguma coisa parecia fora de lugar. Era estrangeira ali e no Brasil também. Uma pessoa incompleta, pela metade? Ou o contrário, o eterno peso de ser duas?

Depois do almoço os adultos reuniram-se na sala, ao redor da lareira. Alguns vizinhos arranjaram uma bola para os meninos, decerto imaginando que toda criança brasileira jogava futebol maravilhosamente. O filho da prima, um adolescente muito louro e desajeitado, se ofereceu para levá-los para dar uma volta. Da janela podiam vê-los no gramado da praça, ensaiando alguns chutes totalmente sem jeito.

A família queria saber como viviam. Tinham ouvido horrores sobre o Brasil, seria verdade? Ela acalmou-os. Existem alguns problemas, explicou, mas o Brasil é lindo, o povo é alegre e solidário. Levara fotos da cidade: os meninos no playground, o pôr do sol visto de sua casa, a viagem à praia no fim do ano. As três semanas de férias passariam velozes. Conseguira um mês, tinha que colocar a vida em ordem antes de voltar para o escritório.

À noite os tios a levaram para conhecer o centro de Oslo. Muitas árvores, calçadas e casas de pedra. O ar da noite era vagamente familiar. Frio. Era estranho e ao mesmo tempo delicioso andar na rua sem chamar a atenção. Nas lojas todas as roupas lhe serviam. Até a pizza que comeram num restaurante com ar antigo tinha sabor de infância. A prima ficava encantada ao vê-la ralhar em português com as crianças. Queria aprender também, e se confundia toda ao tentar repetir as palavras.

O menino mais novo puxara a cor de seus cabelos. O mais velho pronunciava as palavras com cuidado, até com uma certa arrogância, usando termos complicados para a idade. Ele fala igual à mãe, diziam. Até então ela nunca percebera que falava assim. A cor dos olhos das crianças não era azul como os seus, nem castanha como os do pai, e sim um amarelo esverdeado. Olhinhos de gato, dizia ela. O filho mais novo lhe perguntava sempre se era brasileiro. Claro que sim, respondia a mãe, você nasceu no Brasil. Queria ter nascido aqui, dizia ele. Ela suspirava. Mania de criança, depois passa.

Dormiram no quarto dos avós, e estes no confortável sofá da sala. A calefação e os vidros fechados deixavam o apartamento abafado. O termômetro ao lado da janela mostrava que lá fora fazia dois graus negativos. Aquele quadro na parede – disse a avó – foi sua mãe que pintou. A vista da cidade à noite era belíssima, e ela adormeceu com essa imagem na mente.

Quando acordaram, o café da manhã já estava pronto. Havia leite, suco de laranja, torradas e vários tipos de frios, além de um delicioso patê de camarão que nunca tinham visto. Havia também chá e pudim de chocolate. Os olhos dos meninos brilhavam quando sentaram-se à mesa.

A avó perguntou várias vezes se ela sentia fome ou frio. Ela apenas sorria, dizendo que se sentia bem. Não estava acostumada a ter ninguém se preocupando com ela. Sempre sozinha, desde a morte de sua mãe. Mesmo durante o casamento, afinal não era solidão estar ao lado de alguém que não a compreendia? Toda aquela solicitude a deixava sem jeito. Perguntava-se, seria uma pessoa tão boa para merecer tanto amor? Não sabia o que era ser amada, era incapaz de receber sem achar-se na obrigação de retribuir.

Mas emocionava-se olhando os rostos dessas pessoas que ela conhecera a vida inteira, que ao mesmo tempo estava conhecendo agora. O avô ainda atlético e bonito apesar dos quase oitenta anos. A prima de cabelos ruivos, antiga companheira de travessuras, agora uma executiva bem sucedida. A avó alta e delicada, os olhos azuis cheios de amor. Como os de sua mãe – ainda se lembrava?

– Por que não vem morar aqui com a gente?

Ela confortava a avó, prometendo voltar assim que possível. Amo vocês, mas gosto do Brasil, não me acostumaria com o frio daqui. Os meninos estão crescendo, quem sabe eles queiram vir para fazer faculdade, posso mandá-los?

E era paz que sentia, ao compreender que sua identidade estava inteira. Sempre estivera. Bastava aceitar-se. O sol da manhã ainda fraco lá fora, ia sair um pouco com as crianças e aproveitar o clima bom. Na televisão tinham dito que iria nevar antes do fim da semana. Queria caminhar na montanha, achava linda a paisagem. O filho mais velho discordou: só tem pinheiro! Por isso é que é bonito, explicou, porque é diferente…

Beijou a avó antes de sair. Os meninos começaram a discutir quem iria apertar o botão do elevador. Na ponta dos pés, o mais novo tentava enxergar através da janelinha, mas ainda não tinha altura suficiente.

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