A Herdeira do Silêncio – primeiro capítulo

Cheguei em casa por volta das nove e meia da noite. Estava tudo escuro e em silêncio, mas havia um bilhete de minha irmã Lorena. Alexandra, saí com as crianças e volto logo, dizia ela. Não fiquei preocupada com os perigos que meus filhos poderiam correr, estando na rua a uma hora daquelas. A cidade de Santa Ângela da Serra, interior paulista, trinta e cinco mil habitantes segundo as estatísticas, desconhece a agitação noturna dos grandes centros. O vento trazia o cheiro de folhas e flores, e da chuva fraca de inverno molhando as calçadas. Permaneci parada ali, no meio da sala, sem saber o que fazer. Minutos? Horas? Estava em outro mundo, onde o tempo não passava de forma linear. Sentia-me cheia de lágrimas por dentro, mas elas se manifestavam como uma sensação de aperto na garganta, igual a quando a gente caminha no vento frio. Era final de julho e o clima estava agradável, apesar do inverno e da chuva fora de época. Olhei ao redor, como se os móveis da casa pudessem responder as velhas perguntas que ainda me atormentavam.

A estante de madeira escura estava na sala, perto da porta de entrada. Pesada e maciça, de aspecto sóbrio, contrastando com o resto dos móveis – peças despretensiosas que andei comprando em vinte prestações nas lojas populares da cidade – contém livros que devem valer uma fortuna, mas que eu não venderia por dinheiro nenhum. Representam a minha infância, um tempo em que era outra pessoa, ainda que essa outra continue dentro de mim e se mostre silenciosamente através de minhas crenças. Fazem parte de minha herança, daquilo que fez de mim o que sou hoje.

Os livros haviam pertencido à minha mãe imigrante, e a estante foi feita por meu pai para abrigá-los.

Na mesma parede há uma foto antiga em preto e branco que mandei restaurar. Foi tirada durante a lua-de-mel de meus pais. Estavam com vinte e poucos anos na época, e pareciam felizes. Minha mãe vestia calça e blusa de uma mesma cor escura que eu não podia identificar na foto, mas que imaginava como sendo marrom ou vinho. Alta e loura, com um ar irreal, de sonho – assim como eu muitas vezes me sinto irreal, um personagem criado por alguém, e não um ser de carne e osso. Meu pai naquele tempo era forte, um pouco gordo, como foi durante a maior parte de sua vida. Não tinha ainda nos olhos claros a tristeza que depois se tornaria sua principal característica. Ao fundo, a paisagem de Foz do Iguaçu. Estavam do lado argentino, mas a foto mostrava também o lado paraguaio e o brasileiro, que apareciam apenas como duas ilhas à distância.

Nunca compreendi direito esse amor desvairado que os unira. Olhando o álbum de fotografias de minha mãe quando solteira, vejo uma jovem de aparência alegre, esguia e sofisticada, sempre cercada de amigas. Seu ar de inocência desmentia a maturidade que os gestos pretendiam demonstrar. Vestia-se de acordo com a moda européia dos anos sessenta, na maioria das vezes trazendo entre os dedos o maldito cigarro que acabaria por condená-la à morte, transformando a vida normal de nossa família numa impiedosa tragédia. Eu cresci em outra época, sofri várias desilusões e aprendi cedo que paixão não mata a fome de ninguém. Há momentos em que me surpreendo imaginando o que levaria uma mulher inteligente a deixar sua família e sua carreira para viver num país desconhecido ao lado de um homem quase tão desconhecido quanto.

Minha mãe, Helen Mansfield, conhecida na cidade de Santa Ângela como dona Helena, era inglesa. Conheceu meu pai, Luís Rodrigues, na época gerente de produção de uma indústria gráfica, durante um congresso de tecnologia em São Paulo. O ano era 1972. Era jovem e romântica; apaixonou-se à primeira vista pelo executivo de gênio forte, com ar irresistível de rebeldia, que falava inglês com perfeição e entendia tudo sobre máquinas. Contra a vontade da família, deixou a universidade e o noivo britânico bem-nascido. Em menos de seis meses meus pais estavam casados, vivendo num sobrado próximo à Avenida Paulista.

Nasci em 1975 e minha mãe deu-me o nome de Alexandra. Nas palavras dela, um nome de rainha. Não deixa de ser uma ironia; é engraçado pensar nas ilusões que nossos pais alimentam sobre o futuro. Um ano e meio depois veio minha irmã Paula. Nossos nomes eram cuidadosamente escolhidos por minha mãe para serem compreendidos em português e em inglês. Minha avó paterna mal chegou a conhecer a segunda neta, falecendo poucos meses depois de seu nascimento. Após a sua morte, ficamos sem nenhum parente próximo no Brasil.

Embora ganhasse um bom salário como gerente de produção, meu pai estava insatisfeito por ter que cumprir ordens e seguir horários rígidos. Nunca ouvira falar antes de Santa Ângela da Serra, mas soube através de um vizinho que a prefeitura dessa cidade estava concedendo benefícios para empresas que se instalassem lá. Depois de algumas idas e vindas para acertar os detalhes, pediu demissão do emprego e montou uma pequena gráfica, mudando-se para o interior com minha mãe, Paula e eu.

Quando minha irmã Lorena nasceu, já estávamos na cidade há quase um ano. E nossa família começava a sentir o peso da escolha feita. O sucesso financeiro esperado por meu pai não vinha. Mas não posso acreditar que isso tenha sido relevante, ou que pudesse ter mudado o rumo de nossa história. Não quando houve tantos outros fatores mais decisivos do que o dinheiro ou a falta dele.

Deixei a bolsa no sofá e fixei a atenção na foto grande da parede. Quase podia ver minha mãe sentada na poltrona lendo um livro, os cabelos longos e dourados escondendo o rosto. Anos depois, meu pai chegando em casa bêbado tarde da noite, xingando o desgraçado tapete da porta que não saía de seu caminho. Como se ainda estivessem lá e eu pudesse ouvir suas vozes pela casa, as lembranças foram retornando, tão intensas e dolorosas que eu mal podia acreditar que três décadas se haviam passado.

 

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